A autora Cida Bento cria um termo chamado de “pacto da branquitude” que reflete um acordo não verbal de uma sociedade historicamente racista do Brasil e do mundo. Tal pacto consiste em aglomerar pessoas em geral do sexo masculino e da cor branca na maior “casta” social e analisado com enfoque no mercado de trabalho pela autora. Tal pacto se dá de forma não verbal por não existir uma convenção ou um tratado criado para tais ações. Entretanto, o padrão analisado de forma brutal nas grandes empresas e até mesmo no funcionalismo público apresenta uma realidade em que as pessoas brancas são a maioria esmagadora no topo da pirâmide e isso era mais evidente ainda em tempos anteriores às cotas raciais em universidades.
A questão trabalhada neste texto paira na compreensão dos mecanismos e da legitimação das hierarquias raciais no Brasil e o pacto da branquitude expõe exatamente essa realidade. A autora, que trabalhou por diversos anos nos recursos humanos na área de recrutamento de novos funcionários, deixa bem explícito algo que ela chama de “pacto narcísico” da branquitude. O padrão da pele branca masculina domina desde o início do Brasil em todos os âmbitos da sociedade e a autora evidencia a urgência em analisar e apontar tais problemas para criação social e governamental em prol de “uma corrida mais justa” e avulsa de julgamentos raciais e de gênero.
Para uma melhor compreensão, a autora fala de um capitalismo racial que seleciona os que devem seguir em frente na pirâmide e da estabilidade eterna aos que no topo já estavam. A lógica de trabalho assalariado capitalista cria uma série de situações que são chamadas de escravidão moderna, se por um lado num Brasil colonial os negros eram escravizados, na sociedade atual são submetidos a subempregos com salários mínimos ou trabalhos informais. Enquanto isso quem rege as regras do sistema são homens brancos que se utilizam da saúde e do tempo de vida de uma maioria negra e pobre para criar fortunas e impérios quase indestrutíveis.
Para reforçar esse local de privilégio, o pacto da branquitude estabelece uma falácia meritocrática que dá coro a um ideal em que pessoas chegam a patamares elevados por esforço e dedicação. Entretanto, essa realidade é ficcional e ignora a distribuição das oportunidades dentro da sociedade. A partir do momento que as melhores escolas, universidades são acessadas por uma maioria branca e elitizada unida a uma incrível qualidade de vida, a possível corrida meritocrática pelas lideranças fica defasada e enviesada para a população negra.
BENTO, Cida. O Pacto da Branquitude. São Paulo: Companhia das Letras, 2022.
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