"Narciso acha feio o que não é espelho” - por Mara Felipe

     Na canção “Sampa”, Caetano Veloso canta que "narciso acha feio o que não é espelho”, relatando as sensações que surgem ao se encarar a sociedade frente a frente e não ver o seu rosto, a sua própria história, percebendo apenas refletido os sentimentos e as vontades alheias da sociedade dominante.

Em "O pacto da branquitude”, Cida Bento contribui para a compreensão dos mecanismos sociais de construção e legitimação das hierarquias de raça e gênero no Brasil a medida que explora o discurso meritocrático que privilegia pessoas brancas no mercado de trabalho e o seu impacto nas desiguais condições de vida de brancos e negros.

A posição de superioridade racial ocupada por pertencimento étnico-racial branco, a forma como essas pessoas se comportam e perpetuam o racismo mantendo privilégios sociais, econômicos, políticos e subjetivos é denominado de “Branquitude”, termo usado para categorizar o privilégio branco e as ações inerentes desse grupo para manter o sistema racista.

O texto aborda a questão da branquitude usando o racismo como uma ferramenta para manter privilégios sociais, destacando como a branquitude se beneficia do racismo, investigando como a manutenção dos privilégios é alcançada através da exploração e da opressão de pessoas não brancas.

Há um acordo não verbalizado de autopreservação, que atende a interesses de determinados grupos e perpetua o poder de pessoas brancas. A esse fenômeno, Cida Bento deu o nome de "pacto narcísico da branquitude”, em referência à figura mítica de Narciso, famoso por ser apaixonado pela representação da própria imagem. O termo cunhado por Cida revela o compromisso das pessoas brancas em manter a estrutura racial injusta, pois assim continuam se autopreservando e se privilegiando. Neste pacto, processos como a exploração de trabalho para acumulação de riqueza da branquitude, são sistematicamente ocultados e substituídos pelo discurso da meritocracia.

Cida aponta que um sistema econômico racial lucrou e lucra bastante com as populações não brancas. A masculinidade e o nacionalismo também são evidenciados, pois projetam em figuras violentas e autoritárias todo o significado de poder e força e, até, de práticas e valores antidemocráticos. Transformar a relação de dominação que caracteriza a branquitude e acabar com esse pacto narcísico, exige que brancos o reconheçam, desaprendam e desmistifiquem ideologias e histórias que os autorizam a colocar a população negra em posições socialmente subalternizadas.

A estrutura da branquitude é, ao mesmo tempo, histórica, econômica e de repressão. O excesso de vaidade e falta de empatia pelos outros são muito prejudiciais e se faz imprescindível redefinir este lugar da branquitude para enfrentar o racismo institucional. Para romper com esse ciclo é necessário construir pólos contra hegemônicos, estabelecer novas referências e fazer o enfrentamento direto a essas formulações.


"E à mente apavora o que ainda não é mesmo velho

Nada do que não era antes quando não somos mutantes

[…] Pan-Américas de Áfricas utópicas, túmulo do samba

Mais possível novo quilombo de Zumbi”


Leitura do livro BENTO, Cida. O Pacto da Branquitude. São Paulo: Companhia das Letras, 2022 (p.6-34).


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