Letramento Racial: um divisor de águas, por Beatriz Diniz

Neste espaço gostaria de relatar a experiência como participante do curso sobre Letramento Racial proposto pelo Núcleo de Estudos Étnico-Raciais da Undf.

O interesse pela temática advém da necessidade de me aprofundar teoricamnente sobre a questão afrobrasileira.
Posso dizer que tal interesse se ascendeu a partir de situações de racismo presenciadas no meu cotidiano de trabalho no IFB/Campus Brasília como assitente social. 

Para além das demandas impostas pela prática profssional, tal questão compõe minha essencialidade enquanto ser humano, pois sou uma mulher preta. 

O curso me trouxe a oportunidade de entender categorias que, apesar de serem expressas continuamente no cotidiano, ainda não eram apreendidas na sua totalidade, tendo destaque a diferença entre raça, cor e etnia. O entendimento dessas categorias permitiu não só o reconhecimento e afirmação do lugar em que ocupamos fenotipicamente como a compreensão de que a negritude envolve cultura e classe social, dentre outros fatores.

A partir dos relatos pessoais de algumas pessoas do grupo, foi possível perceber as nuâncias  do racismo, o que leva a evidência da sua solidez na sociedade brasileira. As leituras propostas possibilitaram ao grupo o reconhecimento de situções de racismo que outrora passaram despercebidas. 

O curso nos oportunizou uma visão da questão de gênero a partir do lugar da mulher preta tanto academicamente quanto socialmente. Como foi dolorido, sofrido reviver memórias e leituras desse lugar que nos remete ao desânimo e ao descrédito na mudança dessa dinâmica sem a necessária eversão dessa ordem societária. 

No momento em que nos encontrávamos imersos na desesperança, tivemos a oportunidade de reacender discussões do papel do movimento negro, ao ressaltar as conquistas históricas do povo preto, muitas delas expressas normativamente. Nessa hora nos deparamos com a importância de não deixarmos a luta esmorecer e que muito caminhamos até aqui, fato que faz renascer a esperança. 

Parte dessa esperança pode, por mim, ser materializada na discussão sobre as escolas via confirmação que este espaço é passível de potencialidade de transformação sem desconisderar os desafios. 

Entender que há um pacto não normativo ou escrito da branquitude que tem por objetivo manter sua hegemonia social, econômica, cultural e racial foi um dos pontos altos do curso que me levou a reflexões que perpassam toda a trajetória da minha vida. 

O curso possibilitou a aproximação sobre a temática racial alimentando a curiosidade e desejo de estudar cada vez mais o tema e incitando uma nova postura sobre as situações de racismo, deixando, para mim, como principal mensagem de que "não se pode deixar passar".

Não devemos deixar passar: comentários com tom de brincadeira, expressões racistas naturalizadas socialmente, as oportunidades de expressar a importância do olhar para tudo que é caro ao povo preto. Esse foi o verdadeiro divisor de águas. 


Comentários