Letramento Racial, reflexões por Priscila Formiga

     Olá!! Meu nome é Priscila Formiga, sou filha de Ester Rosa e neta de Leda Alves, duas mulheres guerreiras e inspiradoras para mim, sou Professora de Português como Língua Adicional para pessoas estrangeiras, sou capoeirista também e para esses dois "universos" - docência e capoeira - que vieram inúmeras reflexões e contribuições durante a vivência no Núcleo de Estudos Étnico-raciais.

     Hoje gostaria de compartilhar um dos textos produzidos para o curso baseado na leitura dos 4 capítulos iniciais da obra de Cida Bento - O Pacto da Branquitude. Para introduzir o texto, sugiro ouvir a musicalidade da capoeira "Vai a flor, fica a semente". Penso que essa música dialoga com as reflexões trazidas por Cida Bento.

Vai a flor, fica a semente
(Mestra Janja Araújo e Joana Nery.
Grupo Nzinga de Capoeira Angola)

Foi no Rio de Janeiro
Num dia de quarta-feira
Mataram mais uma preta
Mataram mais uma preta
Mataram uma companheira
Sua vida, minha colega
Sempre foi de muito risco
Pra que luta todo dia
Contra o machismo e o racismo

Mas é na luta que aprendemos
Vai a flor, fica a semente
Enquanto estivermos juntas
Marielle está presente
camaradinha

    Nos quatro capítulos iniciais do seu livro “ O Pacto da Branquitude”, Cida Bento demonstra que é possível compreender a manutenção da Branquitude a partir de alguns aspectos não dissociados: o pacto narcísico, a colonização europeia, o capitalismo racial e a personalidade autoritária, a masculinidade branca e o nacionalismo. O Pacto narcísico refere-se a um pacto não verbalizado entre pessoas brancas para manutenção de privilégios; que mantém e sustenta as desigualdades, por meio desse pacto é possível compreender, por exemplo, a construção hegemônica branca de perfis de colaboradores em determinadas posições e funções em empresas e instituições tanto públicas quanto privadas. Essa desigualdade no quadro de funcionários - como o predomínio do perfil masculino e branco nas posições de liderança - é justificada através da ideia de mérito, no qual as heranças e experiências do grupo privilegiado são desconsideradas. Essa explicação remete à experiência do governo atual na indicação de uma ministra negra ao STF e também de funcionárias negras ao governo, nessas situações, o argumento do mérito foi utilizado em diversos momentos para justificar a escolha e também ausência de mulheres negras em determinados cargos; sem mencionar o governo anterior que sequer cogitou nas possibilidades de alteração dos perfis de lideranças e de colaboradores.
    É nesse contexto da meritocracia que são ‘esquecidas’ a herança escravocrata branca e os impactos positivos para as pessoas brancas, que se beneficiam de alguma maneira, e que, segundo a autora, precisam servir, proteger e fortalecer o próprio grupo. Diante da explicação da autora, é possível remeter a grupos que posicionam-se contra a demarcação de territórios quilombolas e indígenas, contra contas, contra narrativas decoloniais etc., além de grupos que contribuem na manutenção de narrativas de desinformação como “Zumbi tinha escravos”, “ os africanos contribuíram para a escravização”, “ se não fosse a colonização etc.”
    Cida Bento ressalta também como o processo de colonização europeia e a escravização africana e indígena fez com que a economia capitalista se desenvolvesse e que se consolidasse um pensamento hegemônico para a proteção e fortalecimento dos interesses do grupo dominante branco europeu, a autora cita leis criadas ao longo dos anos no Brasil - a lei do Ventre Livre, de Eusébio de Queirós, a Lei de Terras, a reparação aos proprietários escravizadores - que apresentam seus reflexos até a atualidade, a ver os dados desiguais de propriedade de terra e as lutas por demarcação de territórios indígenas e quilombolas.
     Segundo Bento, o sistema mundial capitalista ligou raça, terra e divisão do trabalho, conferindo substância à relação de dominação, onde predomina o discurso de liberalismo meritocrático. Para compreender a manutenção desse sistema, a autora lança mão da Teoria da Personalidade Autoritária, caracterizada pelo etnocentrismo, pela criação de um inimigo para que sejam,assim, ativados afetos de raiva e ressentimentos sociais. Ao criar “inimigos do Estado” permite-se, então, combatê-los, Cida Bento remete a noções de Foucault - biopoder, biopolítica - e ao conceito de necropolítica de Achille Mbembe. Esse trecho do texto conduz reflexões sobre o ‘excludente de ilicitude’, sobre ações de agentes de segurança a pessoas negras - violência, agressões, perseguições, genocídio- sobre grupos e pessoas praticantes de religiões de matriz africana etc., no qual é permitido violentar, agredir, excluir, matar, silenciar para que o grupo dominante ( e suas ideias) se perpetue e se mantenha no poder.
    A partir da leitura do texto, é possível perceber que a análise da branquitude adentra aspectos do cognitivo por meio de narrativas e representações, onde há a manutenção da memória da escravização dos corpos negros, mas há, por outro lado, a exclusão de suas conquistas e resistências, ao mesmo tempo, reafirma-se o esquecimento da herança escravocrata branca e seus privilégios que são transvestidas pelo liberalismo meritocrático na atualidade. Ainda nesse contexto, o perfil de masculinidade branca e do nacionalismo prevalecem e são reverenciados, ademais, racismo, sexismo, homofobia, conservadorismo social e religioso são reproduzidos e autorizados em diferentes esferas da sociedade.

 



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